Doze de outubro

calendario

Hoje é um daqueles dias em que as pessoas, sobretudo as que não tem filhos ou crianças por perto, lembram de como eram os tempos quando elas mesmas eram crianças.

Outros tempos. Por alguma razão, quase sempre parecem melhores. Talvez seja verdade que o sol brilhava mais – ou talvez, simplesmente, nós nos deixávamos encantar pela novidade que era a luz dourada. Quem sabe, de fato houvesse mais pássaros cantando – ou talvez seja que nós não prestamos mais atenção (agora mesmo, um sabiá se despede, animado, da tarde. Quem mais estará ouvindo, eu me pergunto. E por alguma razão me sinto solitária. E por alguma razão me sinto privilegiada).

Olho para as fotos de amigos, crianças que não reconheço, bebês gordos e risonhos e sépia. Eu não envelheço de boa gana. Não gosto de pensar que terei menos tempo para fazer tudo o que eu quero fazer. Depois penso no velho relógio e, não sei por que, isso me faz pensar nos cachorros que tive, que me fizeram feliz, e nas lágrimas que derramei a cada partida. Penso nas árvores que escalei e naquelas que deixei de subir. No quanto pedi – e não ganhei – uma bicicleta. E que quando ela finalmente veio para as minhas mãos, já não tinha tanto interesse.  Penso naquele velho Forte Apache, no posto de gasolina de plástico, em todos os brinquedos que queria e não ganhei, e cuja ausência me fez imaginar e viver mais aventuras do que as que teria imaginado e vivido com esses brinquedos nas mãos.

Daí que não consigo deixar de pensar que talvez as crianças de hoje, as que me rodeiam, as que vivem uma vida abastada e segura, uma infância muito próxima da que eu tive, não terão, contudo, a metade da liberdade. Seus cachorros não poderão latir, nem cavar buracos, e elas ganharão bicicletas, skates, patins, joelheiras, capacetes e cotoveleiras, mas no kit não virá nenhum roxo, nenhum esfolado para ensiná-las sobre as leis da Física que não se pode corromper. Elas não subirão em árvores, até porque, árvore é um artigo cada vez menos presente. Mas elas terão tablets – eu apenas os sonhei – e andarão de trem – o que eu teria adorado, enquanto criança. Elas terão nas mãos um celular para falar com o outro lado do mundo, um computador para visitar virtualmente navios e museus, e jogos hipnóticos que tornam o monstro e o bandido simulacros mais coloridos e menos reais do que a Realidade e a Imaginação são capazes de oferecer. Estranhos perigos esperam nossas crianças nos dias de amanhã.

A Realidade é a única interface que me permite saber que à noite, além das luzes da cidade, há um céu cheio de estrelas. Que há mais mundos além desse que me exibe a tela de cristal líquido que as crianças de hoje manuseiam com intimidade invejável. E que todos eles são mais reais do que as imagens sépia, cópias luminosas do que fomos um dia. Torço com fervor que a infância de hoje aprenda a sonhar para além das bpis da virtualidade colorida.

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