O cansaço

 

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A Salamanca do Jarau” – Pitágoras Dutra – exposição Ilustrando Simões Lopes Neto

Faz 30 anos que trabalho com Cultura. Faz 30 anos que, mesmo falida, vou à livraria, ao cinema, ao show, ao teatro – e isso me dá alento para continuar.

Faz 30 anos que ouço a mesma ladainha ser repetida.

Eu estou realmente cansada dela.

Estou cansada de ver o espaço da fala e do riso ser, cada dia, diminuído. O tempo para sonhar se esvai da ampulheta – não o sonho de sempre (dias melhores, casa própria, carro do ano, contas pagas), mas o sonho do impossível: gentes de outras raças, horizontes de outras praias, falares de outras línguas, costumes dos diferentes de mim. Estou cansada das vitrines que se fecham, dos microfones que se desconectam, da falta de perspectiva.

Estou cansada de ver o que dá voz ao humano ser tratado como sobra, como supérfluo. O quadro na parede não é supérfluo – mesmo que não tenha sido pintado pelo gênio predileto com vista para o Guaíba; a música que ressoa não é supérflua – mesmo que não seja dedilhada pelo gênio do instrumento da moda; o ator no palco não é supérfluo – mesmo que não recite o gênio histórico. O livro  – ah, o livro, o livro! On the table e aberto, de preferência –  ele não é supérfluo, mesmo que tentem nos fazer crer que pensar, imaginar e criar/ re-criar a realidade, ato final e exclusivo de quem lê, de quem transforma letra em palavra, palavra em frase, frase em parágrafo, parágrafo em pensamento, seja um ato inócuo e desnecessário (anotem aí, o dia em que isso será dito com todas as letras está chegando, assim como chegou, mais uma vez, o dia em que ser feliz é um ato de rebeldia).

Estou cansada de ver a Cultura ser enxotada como se fosse um cão vira-latas implorando por uma migalha da mesa – mesa essa, a bem da verdade, onde já faltam demasiadas coisas: Educação, Saúde, Segurança, as duas últimas filhas diretas da falta da primeira. A Cultura é o cão de guarda, o que late quando a barbárie e a ignorância se aproximam com seu discurso de – primeiro – medo, depois discórdia, força bruta, e, por fim, de cinzentez.  Dias grises chegaram. Hoje se ameaça a Secretaria de Estado da Cultura Se fala em fechar rádio e televisão pública que são os últimos bastiões da Cultura na mídia de massa. Amanhã serão os museus, depois as bibliotecas. Vender a Fundação Piratini é fechar o único espaço público de divulgação do pequeno artista, do iniciante, de quem não é importante – talvez apenas “ainda não”, pois quem sabe como será o dia de amanhã? E sem uma janela por onde latir esse vira-latas atrevido, quem saberá quando a orquestra silenciar, quem verá quando a última luz de bastidores se apagar, quem verá o pano cair? Quem impedirá as sombras tomarem conta de nossa alma?

Ameaçar a Cultura é brandir uma mordaça. Sempre. A Cultura ironiza. A Cultura resmunga. A Cultura vaia. A Cultura aplaude. A Cultura ilumina A Cultura expõe. A Cultura indaga. A Cultura reflete. A Cultura nos faz rir e chorar. Sua ausência nos embota.

Cultura não é seriado na Internet. Não é novela de TV. Cultura não é blockbuster. Cultura não é blogue. Esses formatos se valem da Cultura, mas a Cultura é mais do que isso.

Cultura é encontro. Ela sempre é o encontro de seres humanos como a beleza, com a alegria, com outros seres humanos e, ao fim de tudo, consigo mesmos – esse encontro misterioso e emocionante que chamamos de “Arte”. Um encontro que nem de longe é supérfluo e a toda vista, é indispensável. A opção a isso é deixar de ser humano. É se tornar máquina produtiva, animal reprodutivo, robô de repetição das mesmas coisas que engessaram: medo, ansiedade, violência. Das palavras aos atos vai um abismo, mas facilmente transponível.

Chegou, senhores, o dia em que a alegria, a felicidade, a emoção, são, novamente, atos de rebeldia.

Sejamos rebeldes.

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