Noite

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Já era noite fechada. Abafada, coisa dessa Primavera verdadeira e verdadeiramente louca, com frios e calores se sucedendo como comerciais na TV: rápidos e contundentes.

Na rua ao lado do meu prédio, a imobilidade e as luzes de alógeno. À direita, janelas de prédios pipocando luzes de TV, as sombras das salas comerciais silenciosas, o riscado da iluminação pública desenhando as ruas, os trilhos, o trem passando devagar, o eco dos motores dos carros na avenida e além, mais prédios, mais sombras, mais riscados, o centro com seus contornos exatos. Só na distância, adivinhado por muito conhecido, o morro dos Dois Irmãos e suas antenas altas. Noite urbana, enfim, e em algum lugar, lá no alto onde não quase não se vê, as estrelas.

Cá embaixo, a rua tem alguma movimentação. Uma moto, um gato baldio, outro. Quase um teatro, esses gatos que fingem não saberem quem são um e outro.

Na frente do chalé que vejo desde a janela, uma mancha branca se destaca das sombras e vem caminhando devagar até a entrada do carro. É o cachorro da família, aquele que só toma banho quando chove, visita os restaurantes da redondeza como se não ganhasse comida em casa e late para tudo: outros cães, gente, sombra, roda de bicicleta. Às vezes morde. Não, não morde: belisca. Dói, faz um pique de sangue, mas é só isso. Mete medo não por ser grande, mas por ser atrevido.

O cachorro olha para um lado, olha para o outro. Parece eu, olhando o movimento. Senta. Suspira. Olha uma esquina. E olha, e olha, uma mirada infinita, infinitamente saudosa. Triste mesmo, orelhas baixas, aquela expressão corporal que só os cães tristes têm.

E depois num salto, se põe sobre as quatro patas. Orelhas em pé. Rabo ao alto, que logo se balança numa expectativa. Espio para onde ele olha e vejo, atravessando a rua, ainda do outro lado da quadra, fora do alcance do seu ângulo de visão, a dona da casa vindo com seus três filhos – duas meninas e um menino, o menor do trio. Caminham com vigor, a casa está perto, já é de noite, sabe-se lá o que ainda têm para fazer em casa. Dobram a esquina e se misturam às copas e sombras das árvores. O cão late, satisfeito, e dispara na direção da família. O menino corre na direção dele e em um determinado ponto, bota o joelho no chão e abre os braços para o maior abraço do mundo, e grita para quem quiser ouvir:

– Meu amigo!

Depois disso, não há nada a dizer. Não ouso voltar para a TV, não ouso olhar o jornal, nem mesmo continuar na janela. A família entra, completa de novo, e eu vou, quietinha, para a minha cama. Amanhã será outra história. Hoje, pelo menos, o dia terminou feliz.

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