Teoria Literária

livraria

Em Porto Alegre, mais uma livraria fechando as portas. Mais uma. Uma daquelas lojas pequenas, de bairro, com discurso e donos interessados em dar espaço para Cultura. Em viver dela. Em viver oferecendo espaço para o pensamento, sonhos a preços módicos, criatividade à granel e, de quebra, troco ou brinde, o bem maior: o despertar da consciência, o florescer do raciocínio, o transbordamento das emoções.

Tudo isso em simples folhas de papel. Que agrupadas e organizadas, costuradas, coladas ou grampeadas, com capa dura ou simples, chamamos prosaicamente de “livros”.

Um livro é uma coisa descomplicada. Você abre na primeira página. Não precisa carregar nem bateria, nem arquivo. Se deixar marcado onde parou de ler, é coisa de segundos para voltar a mergulhar no texto. Não há que se esperar. E se abrir do lado errado do volume, vai ver logo, porque o texto estará de ponta cabeça. É, coisa mais simples não há. E o melhor do livro físico: VOCÊ ABRE ONDE QUISER! Existe uma máxima, uma combinação atemporal e tácita, de que você irá começar a ler o livro pelo começo. Uma espécie de regra. Contudo, o livro, esse cadinho de liberdades, seria uma contradição em termos se não permitisse ao leitor essa total escolha: se você está em dúvida quanto a ler ou não ler determinada história – questão das que transcendem os livros de teoria, ora vejam, o gosto das pessoas não se rege por escolas literárias, mas pelo balanço do coração – você pode tirar o livro da estante, abrir onde quiser e ler um pedaço. Ou um capítulo. Ou dali em diante. Ou de trás para frente. Você manda. Você pode.

Experimente fazer isso em uma livraria virtual para ver se consegue avançar além das primeiras páginas ou do capítulo selecionado por alguém – outrem, que não você.  Depois me conte quantas páginas o programa o deixou ler. Eu vou querer saber.

Dizem que as livrarias pequenas, charmosas e engajadas, estão desparecendo porque o livro é muito caro. Que mais barato é comprar pela Web, que oferece descontos abusivos e beneficiam não fica muito claro a quem. Encomendas que levam dias para chegar, diferente da livraria, onde você escolhe, paga e leva para casa. Dizem, algumas pessoas, que elas gostam muito de ler, muito, muito, mas não estão dispostos a gastar uma exorbitância por um punhado de palavras, sonhos e emoções.

Eu tenho uma teoria, um teoria bem amarga. Não creio que seja uma questão de preço. Acho que essas pessoas gostam do que já está pronto, cozido e mastigado. Não entenderam, ou não sabem, que a Literatura, assim como suas outras colegas Artes, são aventuras. E aventuras são exigentes. Elas não têm setas informativas, não têm resenhas dizendo que é bom, nem críticas dizendo que é ruim. Elas não informam se você vai gostar ou não. As aventuras – as Artes, por extensão – se apresentam e você embarca nelas, ou não. Você pode se aventurar, ou esperar que lhe digam que o que você vai achar do livro. É uma escolha simples, que, é claro, a Literatura também lhe dá: a escolha de pensar por si mesmo ou de deixar que os outros pensem por você.

E há uma segunda parte dessa teoria: vereis, caros amigos, é uma tolice achar que a Literatura é algo que se reduz à livros, que se refugia em páginas, que se completa com o fechamento da contracapa sobre o volume lido. Esse é um engano que adquirimos em algum momento de nossa vida e do qual urge se desfazer. O nome disso, é “leitura” e esta é apenas uma parte da Literatura. A Literatura é, sobretudo, uma troca. Entre o leitor e o autor. Entre o leitor e o balconista. Entre o leitor e o desconhecido parado ao seu lado, procurando outro título na estante. Entre o leitor e o fã do livro. Entre o leitor e o crítico. A Literatura, se é que acontece no coração – e eu realmente acredito nisso – só acontece quando há mais de um coração envolvido. A leitura pode ser uma atividade pessoal, mas a Literatura é troca, é encontro, é diálogo. A Literatura, caramba, é Arte, e não há Arte que atinja sua plenitude no silêncio e na escuridão.

Portanto, não me digam que foi pelo preço do livro. Não me digam que foi por causa do comércio virtual. Não foi. Não é isso o que mata as livrarias de bairro, nem o que irá nos deixar apenas com a leitura de massa entalada na garganta. É a nossa preguiça de viver.

São dias grises que vivemos. Sem esperança, sem fé, sem aventura. Nossa culpa. Nós os aceitamos e melancolicamente mergulhamos neles como se não houvesse amanhã. Deixamos que nos digam o que ler, o que vestir, o que gostar, o que dizer, o que pensar. Porque as catástrofes são iminentes, o medo cresce feito erva daninha e o mal bate a nossa porta.

E com essa acomodação passiva que cultivamos todos os dias, nem precisará de convite para entrar.

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4 comentários sobre “Teoria Literária

  1. Tu estás certa em muita coisa, mas não citas o fato de as pessoas terem perdido poder de compra. Elas ficaram desempregadas, ou estão com os salários atrasados e precisam desesperadamente restringir suas despesas.
    Não são somente livrarias que estão fechando no RS, são inúmeras pequenas e médias empresas, porque os clientes sumiram; o dinheiro que possuem é para pagar moradia, alimentação, transporte, e olhe lá!
    Se a prefeitura de Poa também passar a atrasar os salários de seus servidores, é melhor fecharem a cidade e anexarem-nos a SP. Talvez aí possamos ter alguma chance.

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  2. Ótimo texto Simone. Eu tb tive (tenho ainda) um sentimento sobre isso com o disco, não soh pelo livro. E com o disco ainda foi pior, pq o livro papel ainda terá uma sobrevida por motivos distintos, mas o disco quando acabou.. praticamente acabou MESMO. As lojas de disco (fora megalojas de produtos diversos, de shopping) se fecharam na capital e em todo canto do Brasil, sobrando alguns “sebos” de discos de sobreviventes q vendem mais ao colecionador.

    Aliás, amigos meus que colecionavamos discos da qual tivemos tantos bons momentos com lançamentos, reunião para escuta-los etc, pararam tb de comprar, apenas baixando pela internet. Isso me intristece, mas entendo que eh a tecnologia falando mais alto.
    Eu ainda não soh compro livros, como compro alguns discos, pq faço parte de uma geração onde o “ter” ainda eh “tocar” e “cheirar”.

    Eu leio ebooks, eu escuto mp3, mas convivi muito bem com as duas opções.

    Mas entedamos… eh questão de costume. Mas eh triste ver lojas que tanto fizeram parte da nossa infancia e juventude se fechar.

    Essa da imagem, em Porto Alegre, era aonde Simone?

    Abraço

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    1. Fernando, acredito que a rede é um grande instrumento para conseguir livros que estão em faculdades e são de difícil acesso. Agora mesmo, estou terminando de ler um livro de Granado sobre o folclore da região do Prata, obra que dificilmente conseguiria por aqui. Mas acho complicado quando vejo o mesmo pessoal que tradicionalmente reclama do preço dos livros, gastando o dobro em uma entrada de cinema com pipoca, ou engarrafando os acessos às cidades turísticas da Serra em função de datas ou de finais de semana. É costume, sim, mas seria mais honesto se as pessoas dissessem que o livro não é prioridade em suas vidas. Eu lidaria melhor com isso. A foto que ilustra a matéria está em http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2012/08/livrarias-de-bairro-em-paris.html e a livraria fica em Paris (e não em Porto Alegre, infelizmente). É possível que eu a troque até o final da tarde. Abraços!

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