Há de ser

Ontem a noite, uma escola foi incendiada em Guaíba, a Escola Estadual Nossa Senhora do Livramento. Eu a visitei este ano, dentro do programa Lendo pra Valer da Câmara Riograndense do Livro. Escola de bairro humilde, cheia de gente legal, interessada, que me recebeu com carinho, leu meus livros, ouviu minhas palavras e estava tentando tirar das páginas impressas uma luz para o túnel que nos assola. Perdeu-se quase tudo da escola, embora as pessoas das casas ao redor tenham feito o possível para salvar os livros da biblioteca. Os bombeiros da empresa Celulose Riograndense acudiram o sinistro e fizeram o possível para que as chamas não se alastrassem pelas casas mais próximas – casas humildes, de madeira, que teriam ardido rapidamente, ameaçando a vida de muita gente.

Me sinto diretamente envolvida nessa barbaridade. E gostaria de dizer pessoalmente a cada uma dessas pessoas que fizeram o possível pela Escola Estadual Nossa Senhora do Livramento e seu acervo:

Muito obrigada. Obrigada pela sua preocupação, pelo seu esforço, pela resposta. Obrigada por estarem aí. Obrigada, tenho certeza de que a comunidade agradece. Eu não sei quanto a vocês, mas eu me nego a me deixar levar por essa onda de maldade. Queimar uma escola é o cúmulo da bandidagem. É tentar atingir a raiz de tudo o que ainda é possível, todas as mudanças que podem ser feitas. Quem queima escolas, destrói um futuro possível. Quem queima escolas, destrói o passado afetivo de quem foi feliz dentro de suas paredes – a infelicidade de ninguém justifica uma coisa assim. Quem queima escolas deseja matar sonhos; deseja romper futuros. Não tendo respeito pelo conhecimento humano, tampouco o tem pela vida. Amedronta e compromete o seu próprio cotidiano. Ninguém – absolutamente ninguém – lucra com uma escola queimada e se a noção de que a História nos ensina isso é muito complexa, talvez valesse o dito simples das avós: nada como um dia depois do outro. Porque é o Tempo, esse grande mestre, quem nos ensina essas certezas.

Renego esse egoísmo, essa tendência à feiura, ao medo, ao desamparo. Renego essa tristeza que nos assola, o pessimismo, o sopro infernal de um final dos tempos que não é mais do que a expressão de nossas escolhas. Escolho acreditar que as pessoas são livres para acreditar, para construir uma vida honesta, para construir um espaço de paz, almejar e fazer acontecer um mundo melhor. Renego aqueles que dizem que não há conserto, que não é possível, que não há nada o que fazer, a não ser abaixar a cabeça e deixar as muitas sombras que escurecem nossa sociedade tomarem conta. Não, nós não somos assim.

Contra tudo e contra todos, apesar dos pesares, sim: haverá amanhã. A despeito do que acreditemos, o Sol tornará a iluminar o horizonte, e caberá a nós escolher para onde olhar. Eu escolho olhar o dia que nasce. E tenho a esperança de que as pessoas que me acolheram com tanto carinho, onde quer que estejam, também estarão olhando para ele.

Pode ser difícil acreditar mas: Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Há de ser.

Deixo vocês com as lembranças daquele dia: quente, luminoso e feliz. Obrigada, Nossa Senhora do Livramento.

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