Dia de Reis

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Filha de família de ascendência alemã, o Natal sempre foi um período especial. Eu sei, sempre falo, era uma festa atrás da outra: Natal, aniversário, Ano Novo. Mas o Natal era especial. Em algum momento, o pinheiro “vinha” (na época, comprava-se pinheiros vivos para a ocasião). Dava um trabalhão colocar a pobre árvore em um balde, escorar com pedras, e depois molhar. Fazia calor. Não era apenas o Verão, era, também, a cidade: Campo Bom. Quando fiquei maiorzinha, me esforçava em ajudar. Mais atrapalhava que qualquer coisa, me espetava na folhas afiadas, me lanhava toda. Era a parte que eu não gostava.

Depois, a gente se afastava e ficava olhando para ele, virando um pouco mais para os galhos mais curtos ficarem contra a parede, empurrando para lá e para cá, até tudo estar no lugar certo. E isso era muito legal.

Daí a mãe, ou a avó, dizia: “Moninha, vai buscar água pro pinheiro”. Eu ia até a bomba que puxava água do poço artesiano e trazia uma caneca cheia, suada, porque a água era muito mais fria do que o ar úmido que define minha cidade natal. Alguém trazia um Melhoral Infantil, que partíamos em dois. Eu escorregava para baixo dos galhos, botava a metade do comprimido no meio das pedras, derramava sobre ele água e todo meu carinho. A outra metade do remédio, a avó guardava para colocar no balde mais adiante.

Enfeitávamos a árvore. Creio que houve uma época em que era pequena demais para participar da decoração, mas a tarefa de dar água sempre foi minha. Armava-se o Presépio. E lá estava o pinheiro, a árvore de Natal, pronta para enfrentar as três semanas de festas. Linda. Até hoje me emociono com árvores natalinas.

Mas havia um momento dessa festa, da qual eu participava do começo ao fim. Era quando passava aquela semana chata – eu achava chata – depois do Ano Novo, e por fim a gente desarmava a árvore. Era um processo que sempre começava com a observação da avó, ou da mãe: “Nossa, ele até cresceu. Dá pena de tirar”. E apontava-se os brotos tenros e verdinhos que vinham se abrindo.

Depois era a hora de ir desarmando tudo. Primeiro o Presépio. Cada personagem era retirado, limpo, envolto em jornal e guardado em uma caixa, até o ano seguinte. Sempre desparecia algum, no processo. Eu era criança, adorava raptar um ou outro dos menos importantes e, assim, o Presépio passou por um “enxugamento”, ao logo dos anos. Sobraram só as peças mais importantes.

O último que se punha na caixa era o anjo. Era – é, ainda – meu personagem preferido. Ele flutua, gesso e tinta, sobre os demais personagens, segurando uma faixa. Dizem que ele anunciava “Paz na Terra, entre os homens de boa vontade”. Eu sempre achei que quem precisava estar em paz eram os homens de má vontade, porque os de boa estarão sempre assim, deboando a vida, como tem de ser. Os outros é que tem de aprender.

Depois era a vez das correntes. Velhas, pesadas, duras, eram retiradas com todo o cuidado, para que não derrubassem as bolinhas, que eram daquelas antigas, de vidro colorido, e que eram retiradas em seguida. Como o Presépio, embaladas uma a uma em folhas de jornal com todo o cuidado por essas mãos que agora teclam, e guardadas em uma caixa.

Até o ano seguinte.

Por fim, restava o pinheiro, que os adultos levavam para fora e deixavam na calçada, para que o caminhão do lixo o levasse embora. Fico pensando, agora, quantas pequenas árvores não era levadas para o aterro naquele dia, algumas mais cuidadas, outras menos, mas todas  com o mesmo destino. Abolimos as árvores de verdade em algum momento, quando elas se tornaram caras demais e, a menina, grande demais para justificar o gasto. Com a passagem da infância, se vão algumas das mais belas crueldades.

Nunca deixamos de armar uma árvore natalina em casa, mesmo não tendo mais crianças na família. Hoje, os pinheiros sempre são artificiais. Mas sempre são lindos e sempre me emocionam. E sempre que os armamos, penso que não penduramos ali apenas enfeites, mas nossas melhores intenções, como a boa vontade desejada pelo anjo de gesso. E no dia de Reis, quando ele é finalmente desfeito e guardado junto com todos os enfeites, até o próximo ano, a gente olha para a mesa onde ele ficou exposto durante aquelas semanas e sente o vazio que ele deixa.

Mas não é um vazio ruim. É o vazio que espera por nós.

Chama-se “vida”.

Para mim, o ano começa, mesmo,  no final daquela semana chata depois do Ano Novo, no dia em que, diz a narrativa natalina, os Reis Magos chegaram até Belém. Incenso, ouro e mirra.

Tempo, inspiração e realização. É o meu desejo para todos vocês.

Feliz 2017. Feliz vida.

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