A reforminha

jornal

Estão reformando a entrada do meu prédio.

Não posso dizer que está ficando feio. Eu acho que o resultado não tem muito a ver com o prédio em si mesmo, mas não posso dizer que está ficando feio. Paredes claras, iluminação indireta, esfuziante e inteligente (só acende quando a gente se mexe, sabe como é, precisamos economizar energia. Então se troca duas lâmpadas de não sei que sistema por quinze de led, se coloca um leitor de movimento e um temporizador, tudo ligadinho na rede elétrica, e se resolve a conta). Também foi adquirido uma nova e gigantesca caixa de correio que chama atenção pelo designer. Ainda temos um espelho de parede inteira, que serve para multiplicar a luz, o espaço e o trabalho da zeladora.

Interessante, deveras. Moderno. Fashion – será que ainda se usa esse termo?

Contudo, apareceu um problema. Mínimo, na visão de algumas pessoas. Nem merecia ser comentado, talvez, mas… a questão é que na caixa de correio gigantesca e de designer moderno, ironicamente, não cabe o jornal de fim-de-semana. O dos dias de semana, que é mais enxuto, já fica com a metade para fora. O de sábado, nem isso.

É que é um jornal de muitas páginas. Sabe como é: caderno disso, daquilo, daquilo outro. Esportes, agricultura, entretenimento, artes, reflexão. Simplesmente, não entra na grande-pequena caixa de correio.

A solução encontrada pelo jornaleiro que faz a entrega dos exemplares, no começo da manhã, foi empilhar os jornais do lado de fora da porta de vidro bonita, moderna e fashion. A continuação disso, você já sabe: da irônica caixa de correio onde o jornal fica meio de fora, começarão a sumir exemplares, porque sempre têm os espertos que vivem a vida à base das coisas alheias. A gente vai se incomodar, reclamar, e o grupo editorial vai repor os exemplares uma ou duas vezes. Depois verão que o problema não é deles, e não reporão mais. Com o passar do tempo, vamos cancelar a assinatura (já passamos por uma situação parecida com essa, antes e foi exatamente assim como estou relatando. Na época, havia uma caixa de jornais comum a todos os moradores do edifício e os jornais “desapareciam” misteriosamente, consumidos, provavelmente, por alguma traça roedora de jornais.).

Deixando claro: os jornais somem, a gente se aborrece, corta a assinatura. Imagino isso acontecendo com todos os assinantes aqui do prédio.

Ora, a conclusão de quem vê de fora é que os moradores fictícios do meu prédio não leem jornal. Não se interessam pelo que acontece, não querem entretenimento escrito, não estão nem aí para esportes, artes, o que for. Reflexão? Só se for o do espelho de parede inteira: reflexão, sabe como é? Um reflexo bem grande, que nos mostre nossa indumentária, a maquiagem, o cabelo tratado, o sapato da moda. Por que o pessoal fictício do prédio não quer saber de jornal, quer saber é de si mesmo.

Você já pescou a metáfora? Porque a reforma é verdadeira, e a metáfora também. Se não pescou, eu explico:

Há anos diz-se que o brasileiro não lê; que o brasileiro não gosta de ler; que o brasileiro não se interessa por literatura, sobretudo literatura de qualidade e, de forma absoluta, por literatura brasileira. E eu pergunto: que outro lugar, fora da escola, brasileiro encontra literatura brasileira, de qualidade, para ler?

Na livraria? É. Mas a quantidade de lançamentos estrangeiros tomando espaço nobre é tamanha que os títulos brasileiros se afogam e desaparecem no mar de papel que toma estante após estante. Como “brasileiro não lê” e “brasileiro não gosta de autor brasileiro”, as livrarias não colocam os autores nacionais em destaque. Para quê, não é mesmo? Busines is busines e não adianta buzinar porque ninguém vai dar bola. A lei do mercado é fatal.

Nas bibliotecas públicas? Eu não sei a da sua cidade; a da minha, vive de doações. Ninguém vai doar o livro que acabou de comprar, a não ser as exceções de sempre. O acervo termina mirrado e antigo. Quem já leu Machado de Assis e Castro Alves na marra, na escola, não vai querer repetir a dose depois que for decretada a alforria e proclamada a liberdade de escolha literária que a vida fora do ensino nos dá. Se você pode escolher algo, dificilmente irá escolher o que foi obrigado a engolir. Você até pode reconhecer a genialidade do autor, mas dificilmente o consumirá por moto próprio. Ademais, mesmo que o faça, chegará um momento em que os autores da biblioteca, essa que não se renova por meio de encantos mas por obra da boa vontade política, também terão sido consumidos.

Sobra a mídia. E aí chegamos aonde eu queria chegar.

Houve um tempo em que os jornais mantinham cadernos de literatura. Espaços onde se divulgavam novidades, espaços onde havia colunas de crítica, onde se oferecia poesia, crônicas e contos. Às vezes, até, pedaços de obras. Lembro de ter lido contos inteiros, poesias do Mário Quintana e um trecho da obra “Como se moesse ferro“, na época em que o livro de contos do Altair Martins foi premiado.

“Havia”. Hoje em dia, não há lugar para a literatura nas páginas de jornal porque, como se sabe, brasileiro não gosta de ler. Mas vai gostar do quê, meu Deus, se não põe os olhos sobre a Literatura?! Se não sabe o que é Literatura brasileira, se não conhece nenhum poema, nenhum parágrafo, nenhuma linha? Vai gostar como, se autor brasileiro é matéria de escola, e cada vez menos, diga-se de passagem?

A gente não gosta do que não conhece. Não consome se não sabe que existe. Não lê, se não tiver à mão e aos olhos. Daí, aos poucos, aquilo vai se desfazendo, vai sumindo como uma aquarela borrada, até que um dia desaparece do nosso horizonte de interesse, enterrado sob toneladas de notícias violentas, esportes que são um só e seriados estrangeiros. Tudo muito bonito, tudo muito bem iluminado, com uma diagramação moderna e possibilidades de links likes pela internet. Um reflexão da nossa subserviência cultural aos moldes que vêm de outros lugares, carregando consigo outros valores, outros olhares, outras formas de pensar, que terminamos adotando como nossas, por absoluta falta de algo próprio capaz de preencher o vazio da reforma da modernidade. Que é bonita, é espaçosa, até necessária, mas que vem de fora, imposta de maneira sutil e inexorável. Quando se vê, somos estrangeiros em nosso próprio prédio.

Fico olhando para a reforma da entrada e pensando: uma hora dessas vamos extinguir nossa assinatura de jornal. Dirão que ninguém mais lê jornal em papel. E os jornais ficarão na rede de computadores. E mais gente ainda deixará de ler, porque para ler na rede é preciso lidar com uma série de coisas e nem todo mundo se adapta à algo tão complicado quando um tablet ou um PC.

Exatamente o mesmo que aconteceu com a Literatura que deixou de circular nos jornais porque “ninguém lia”. Porque página de poesia servia apenas para envolver o peixe comprado no mercado, no tempo em os mercados vendiam peixe de verdade, e ninguém questionava se o bife era bife ou papelão.

Se você extingue o espaço da arte, as pessoas deixam de ver a arte. Se você extingue o espaço da beleza, as pessoas deixam de ver a beleza. Se você extingue o espaço de reflexão, as pessoas deixam de pensar.

Depois disso, é só preencher o espaço vazio com a horda dos horrores do cotidiano. E só para lembrar: deles todos, os zumbis são apenas uma metáfora. Uma metáfora ainda menos real do que esta crônica.

 

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