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Pois, para vocês verem como são as coisas, me rendi ao Netflix. Entrei na onda da classe média brasileira, arranjei mais uma conta para pagar – pequena, é verdade, mas de continha em continha, o cartão vira um problemão. A culpa, é claro, é da incrivelmente ruim programação da TV aberta, somada aos horários nem sempre compatíveis da vida corrida da gente.

Então, eis-me às voltas com a mania do momento. Poupo o distinto leitor que me acompanha, da confusão que foi instalar o dito aparelhinho, uma vez que a única TV aqui da casa é moderna, mas nem tanto. Basta dizer que foi descoberta sobre descoberta e gasto sobre gasto, e quase que chamo um técnico para resolver a situação. Quase! Foi por pouco. Mas, enfim, a coisa se resolveu, os trecos pendurados no aparelho televisivo resolveram colaborar e agora eu tenho uma TV inteligente que parece um filhote de Frankenstein.

Inscrita na Netflix, aparelho instalado, me ponho a vasculhar a quase infinita gama de títulos. De imediato me veio um desalento ao perceber a mesma coisa que penso quando entro em uma biblioteca do porte da Biblioteca Pública do Estado: não vou ter tempo de vida suficiente para ver tudo, nem que passe o resto dos meus dias tombada no sofá, de olho na telinha. Dá um desanimo, sei lá, a mesma sensação que eu tinha quando era estudante e me deparava com a quantidade de matéria para estudar para as provas anuais. Contudo, isso é para ser divertimento e entretenimento, então, vamos lá, escolhamos um episódio de qualquer coisa que pareça interessante e vamos ver no que dá.

E o seriado/filme começa. Bom enredo, bons diálogos, boa luz, direção, excelentes atores, estou com tudo mas… cadê o intervalo comercial? Pois de tudo o que jamais pensei que fosse sentir falta, da TV aberta, jamais pensei que fossem ser os famigerados comerciais. Aquele berreiro chato e colorido, aquelas micro-histórias de 30 segundos que te prometem o céu e a terra enquanto te emocionam, envolvem, e te oferecem cartão de crédito como se não fosse preciso pagar a fatura, carro, como se as ruas fossem todas desertas, roupa, como se você fosse uma modelo paga para usar tal marca, telefone, como se não fosse necessário ter alguém do outro lado da linha para atender à sua chamada. Os comerciais te aliciam com uma mentira ampla, curta e maliciosa, que você sabe ser uma mentira, mas que está lá, pagando o tempo caro do seu entretenimento, para que você possa ver de graça. A troca nem é tão injusta: eles pagam o filme que você vê, e você usa aquele tempo de anúncios para fazer o prosaico: pegar um copo de água, fazer um xixi, tirar ou por a mesa do jantar, consultar as mensagens de facebook. Você reclama, mas olha, e se for comercial de Natal do Zaffari terminará se emocionando e talvez resolva ligar para a sua mãe, ou o seu pai, logo depois que acabar o capítulo da novela. Os comerciais pagam as notícias que você não quer ver. Não quer, mas, acredite, precisa, mesmo que elas recortem um pedaço da realidade e te façam crer em coisas que colocam as teorias da conspiração do Arquivo X, no chinelo. Você precisa saber que há jogo de futebol, mesmo que não goste de esporte; você precisa saber que há show de rock, mesmo que você prefira sertanejo caipira; você precisa saber do assalto ao banco, da campanha da vacinação, dos terrores da guerra, e tudo aquilo você acha que não é com você. Aliás, você precisa saber, sobretudo, aquilo que acha que não é com você. As barbaridades do Bolsonaro não são com você. O Inter tentando aplicar um tapetão internacional e voltar à primeira divisão do campeonato nacional, não é com você. Os bombardeios da Síria não são com você. O assalto com vítimas, o incêndio que não foi na boate que o seu filho frequenta, o furacão nos mares do sul, nada disso é com você.

Mas é.

Diz-se que o homem não é uma ilha. De fato. Nem uma ilha, nem um solitário cabrito no pico de uma montanha, olhando apenas as suas encostas. Não há nada que seja isolado. Não há nada que não seja importante. As crianças morrendo de fome na África, não são culpa nossa, mas são importantes. As vítimas dos atentados na Europa, não são culpa nossa, mas são importantes. Os discursos dos líderes internacionais, não são da nossa alçada, a eleição na França, a burca, o impeachment da presidente da Coreia do Sul, o clima na Antártica, nada disso é nossa responsabilidade.

Mas é.

Somos todos passageiros de uma mesma astronave. Grande, gigantesca para os nossos padrões. Complexa e incrivelmente poderosa. Não podemos dirigi-la e nossa existência sobre ela é tão fugaz quanto um suspiro. Não há “fora”, nesta astronave. Não há para onde ir, se as coisas derem errado.  Não há para onde fugir, nem que seja para dentro de uma programação virtual.

Nosso planeta. Nossos colegas inesperados em uma excursão inesperada chamada “vida”. Tudo o que não tem a ver com a gente, é muito mais importante do que imaginamos.

É… a Netflix, aqui em casa, está por um fio. Não porque não funciona., mas porque funciona bem demais.

Ah, a falta que o intervalo comercial faz…

 

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