Thank’s!

turandot

Eu devia agradecer ao Trump. Fazia muito tempo que esta que vos escreve não lembrava o que era ter medo de que uma guerra acabasse com a vida no planeta.  Desde a minha adolescência, na verdade, quando acompanhava, horrorizada, o Relógio do Fim do Mundo. Eram dias tensos, todos eles. O cinema nos contava histórias que tangenciavam a esperança, como aquele “Jogos de Guerra“, em que um jogador de videogame (dos velhos videogames) encenava uma partida mortal contra um computador inteligente do Pentágono. E inteligente mesmo, o tal computador, que ao final de tudo chegava àquela conclusão que todos nós já sabíamos menos, aparentemente, os homens que detinham o poder nas mãos: se guerra houvesse, não haveria nenhum vencedor. Então não havia lógica em um confronto real.

Bons tempos aqueles.

E essa semana, sério… entre Trump, Putin, Coréia do Norte, o asteroide – onde quer que esteja – e a reforma da Previdência, as coisas ficaram bastante assustadoras para quem tem pavor de profecias apocalípticas. Não que eu tivesse, alguma vez, perspectiva real de me aposentar. Escritores, professores de ballet, gente que vive a Arte não se aposentam jamais. A inquietação, o desconforto, o descompasso, o olhar sobre o mundo, está dentro de nós e não há como se aposentar de si mesmo. Não há novela, seriado, BBB ou discussão do Facebook que nos afaste da necessidade de expor o que temos por dentro, dos sonhos aos pesadelos, do genial ao espúrio, passando pelo medíocre de todo ser humano. O mundo fala e a gente ecoa. A Humanidade ruge e nós rugimos de volta – o rugido de um rato, por certo, muitas vezes equivocado, é claro, mas aqui evoco a minha condição humana e o direito de ser limitada. Enfim, dar vasão à veia artística é uma maldição para o indivíduo – ainda que seja uma benção para o resto das gentes. Quem canta, espanta males, e não apenas os seus mas, também, os de quem ouve. Sempre me emociono quando ouço o “Nessum Dorma“, de Puccini, sobretudo se for aquela famosa gravação do Pavarotti. “E o meu beijo destruirá o silêncio“… Ah, maravilha das maravilhas o romantismo verdadeiro e desenfreado dos amantes que prometem morrer ao alvorecer. Morrer por amor, tão mais fácil do que viver por amor, desafio maior imposto pela existência. Quem morre no amor se perpetua na canção, mas quem vive por amor se perpetua na memória, até que a última luz beije as retinas de quem lembra e já não reste nada mais do que a lembrança de uma lembrança. Doce alegria seria viver a brisa de Zéfiro e poder esquecer para sempre os ventos da guerra que hoje sopram, sangrentos e insanos, sobre mares e desertos.

Tão distantes de nós.

Tão humanos quanto nós.

 

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