Trem-bala

trem bala

Pois isso: sou das que ouve “Trem-Bala“, da Ana Vilela vinte vezes em um dia, e chora de soluçar em todas elas. Eu sei que para muita gente não passa de filosofia de Facebook aplicada à métrica musical, mas para mim é irretocável. A delicadeza da melodia simples, a sabedoria das palavras… me lembra a delicadeza simples da melodia de “Oração” do Leo Fressato e a Banda Mais Bonita da Cidade. Eu não choro com “Oração“, mas choro com “Aquarela” do Toquinho. É o tipo de música que evito ouvir enquanto faço a minha caminhada matinal, para não ter de dar explicação. E tem, também “Planeta Água“, do Guilherme Arantes. Nunca tentei ouvi-las em sequência. Não quero desidratar.

Então, lá estou com a mãe no carro. Ela tem 80 anos. Está longe do padrão de senhora de 80 anos. Muito longe. Quem conhece, sabe. Temos umas diferenças na forma de ver que a vida que é uma loucura. Quem não conhece, sequer adivinha. E quem nos conhece, duvida, mas é verdade.  Vamos pelo meio do trânsito de Novo Hamburgo, um trânsito que quer, em tudo, se parecer com o trânsito de uma cidade grande, sobretudo na falta de pudor automobilístico. Vamos quase discutindo sobre alguma coisa, nem lembro o quê. Eu tentado segurar a minha onda, a tensão do trânsito as diferenças de ideia, a vontade de agradar, e, para fechar a conta, a surdezinha incipiente e desatenta dela, que a faz perguntar “ham?” cada vez que eu falo alguma coisa que lhe interessa pouco.

E aí começa a tocar “Trem-bala“, a versão original da música, com a Ana tocando o violão, coisa mais simples não há. Eu chamo a atenção da minha mãe, digo “ouve só isso”, e subo o volume do rádio, querendo dividir com ela a poesia positiva da letra.”É saber se sentir infinito/ Num universo tão vasto e bonito/ É saber sonhar/ E, então, fazer valer a pena cada verso/ Daquele poema sobre acreditar” . Vai dizer? E nem é isso, Ana, não. É sobre a fragilidade, a fugacidade da vida, a rapidez com que tudo vem e vai e nem dá tempo de a gente ver tudo o que queria. Dar todos os abraços. Dizer todas as letras da palavra “amor”. Essas coisas.

Chegamos ao nosso destino logo adiante. A mãe quieta, olhando para fora. Estacionei, achando que ela estava ouvindo. Não dá dois segundos, ela abre a porta do carro e me diz: “Fica aí ouvindo, que eu vou ali.” E sai para a calçada, sem esperar o verso seguinte terminar de contar que “a gente é só passageiro prestes a partir“.

A música desmoronou-se, não há poesia que resista a isso. Apaguei o rádio, saí na esteira dela, decepcionada por não conseguir compartilhar algo tão bonito, com uma pessoa que está ao meu lado o tempo todo. E a encontrei diante de um jardim, admirando as flores, as plantas que adornam a varanda, uma trepadeira grande e velha, com folhas escuras e lustrosas. Ela estende a mão para além da cerca e puxa um galho cheio de flores, estranhas, tubulares, diferentes, e lamenta: “Se não fosse uma árvore, eu roubava um galinho para ver se pega”.

“Tu nem ouviu a música, não é?”, eu lamento. Ela dá de ombros, afagando as flores e os arbustos com o olhar e comenta: “Era alguma coisa sobre abraçar seu filho e seus pais, não era?”. Depois sai andando como se nada. E eu me dei conta por que a letra maravilhosa não a conquistou: porque tudo aquilo lá ela já viveu. Já sabe como é. Lição vivida, repetida, aprendida. Não há nada na maravilhosa canção da Ana Vilela que seja novidade para as oito décadas da minha mãe. Aos oitenta, estar vivo é a dádiva suprema que a gente celebra todos os dias, e a vida a maior de todas as belezas, de todas as melodias. Ter um jardim no quinto andar, afagar cada planta, querer novas flores. Essa é a grande viagem do momento. E, ao fim e ao cabo, a vida é o que realmente conta.

Pois é Ana, o mundo é assim: tem aqueles que viajam no trem-bala, como eu, e temem a próxima estação como se fosse uma maldição. E tem aqueles que pilotam o trem-bala.

Feito a minha mãe.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s