A pedra

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‘Dia desses, vou andando pela rua, na minha caminhada rotineira. Era feriado, dia santo, daqueles que, em pequena, não se podia ouvir música que não fosse clássica, nem rir alto, nem cantar.  À tarde tinha Sessão da Tarde fixa: ou “O Manto Sagrado” ou “Quo Vadis“. Era, pois, Sexta-Feira Santa, e qualquer proibição antiga ficava revogada diante do céu azul, das nuvens calmas, do sol risonho.  E pelo Tempo, que corre e nos leva consigo, e devora qualquer sagrado que não for ele.

Assim, ia eu andando. Na sombra da igreja do relógio, em Hamburgo Velho, o som abafado da voz do pastor rezando o culto. As orações ecoavam como o zumbido de uma colmeia.

Uns passos adiante, os dois declives gramados onde estão os jardins da igreja. No degrau mais baixo, a comunidade mandou instalar um parquinho de madeira e ferro. Balanços, gangorras, uma torre para conquistar. Havia famílias ali e as crianças brincavam. Olhei para as crianças com uma ponta de inveja – só os pequenos se divertem, crescer é uma coisa muito limitante. Do outro lado do gramado, há o muro que separa a propriedade da igreja do jardim vizinho, palmeiras, e uma pedra de metro e meio de altura, caiada de branco. Naquele ponto havia um menino olhando para cima, e o pai que o acompanhava, tentando ver o que o filho via.

Sabe-se lá o que era? Uma ave, um ramo, o relógio da torre, uma nuvem? Não sei. Sei que o pai olhava e apontava – vai ver, um cacho de coquinhos, pensei. Pensei, mas não vi, nem eu, nem o menino. E aí, num movimento fluído, o homem pegou a criança e a colocou sobre a pedra e – conquista das conquistas! – menino ficou uma cabeça e meia mais alto do que o pai. Os dois olharam a palmeira, ou o céu, ou a torre, olharam e riram, o homem apontava, o menino balançava a cabeça com mais clareza, ali ele via além, ali ele via um tanto mais do que o pai, e isso foi verdadeiro, e assim é a vida.

Segui meu caminho e pensei, pois, isso: tem gente que atira pedras umas nas outras, tem gente que usa pedras para construir muros, tem gente que usa pedras para construir catedrais. E tem aqueles que sobem nas pedras e vêm um tanto a mais do que os outros.

Eu sempre vou preferir estes últimos.

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