A volta dos que não foram

tirângulo

Na timeline da Facebook, a notícia: um navio desaparecido há um século, reapareceu. Trata-se do SS Cotopaxi, que  sumiu em 1925, um navio com carregamento de carvão e tripulação de aproximadamente 30 homens. Tudo sumiu. Os resgates jamais encontraram indícios de um afundamento no local indicado, nem boias salva-vidas, corpos, ou míseras manchas de óleo.

O oceano é um túmulo vasto e alienígena.

O detalhe macabro e quase ritualístico, porém, não foi o sumiço do navio e sua tripulação, nem a ferrugem universal da  carcaça reaparecida, mas o lugar onde o navio desapareceu: o bom e velho Triângulo das Bermudas, aquele lugar sinistro entre Porto Rico, a Flórida e as Bermudas. O Mar dos Sargaços. Se o lugar, na minha adolescência, ocupou horas de leitura com relatos de desaparecimentos inexplicáveis, também me ensinou um pouco de geografia. Bermudas, afinal de contas, não era apenas um lugar de nome engraçado, de onde vinham candidatas à Miss Universo todos os anos, mas um arquipélago britânico próximo à costa norte do continente americano, onde ficam, mais do que mulheres lindas, praias paradisíacas, buracos azuis abismais e barreiras de coral cheias de vida.

A notícia de agora vem acompanhada dos detalhes corriqueiros destes casos: a tripulação do navio desapareceu sem deixar rastros, o diário de bordo do capitão não revela nada do que poderia ter acontecido.  Tudo ia bem até o desastre — que não é o importante, não mesmo.  O importante, aqui, é o lugar do desaparecimento  o que garante aquilo que há anos se luta para extinguir: o mistério. Se o navio foi uma das vítimas do Triângulo das Bermudas, o certo é que ou foi levado por discos voadores, ou teve sua tripulação sequestrada por extraterrestres, intraterrestres ou atlantes.  É quase uma cartilha e a maneira de redigi-la garante os batimentos cardíacos e o olhar distante, perdido num horizonte ainda mais imaginário do que o vemos, porque feito pura imaginação, a “purinha” de todo o consumidor contumaz do Inexplicável.

Um navio some em um mar dado à reviravoltas climáticas e condições de tempo que beiram o bizarro, para ressurgir, quase um século depois, em águas proibidas — e lógico que seriam proibidas. De que outra maneira iríamos pensar “ahá! Como é que ele foi aparecer logo ali, em território interditado? Com certeza eles o puseram lá. É um sinal. Um sinal de que não estamos sozinhos. Eles estão de olho.”

Ah, o alívio de se saber acompanhado não de elefantes, borboletas ou golfinhos, não de corais , árvores ou pepinos, mas de criaturas mais poderosas e benévolas do que nós. Alguém que nos pare e nos salve, alguém que se preocupe com a gente. Se achar o topo da evolução é uma responsabilidade gigante, grande demais para a frágil e egoísta psicologia humana. Mas cada vez que a internet se ilumina com alguma historieta dessas, o horizonte sombrio de guerras e mudanças climáticas se esgarça em uma fímbria de esperança. Eles estão de olho. E por alguma razão que não sabemos explicar, nos convencemos de que eles são bonzinhos. Porque se não fossem, talvez seja o raciocínio, eles já teriam dado cabo de nós, os bagunceiros planetários de plantão.

Mas aí chega um amigo e me avisa que a notícia do navio é fake, falsa como aquela história de um bom velhinho trazendo presentes no Natal. Não há reaparecimento verdadeiro. O SS Cotopaxi vive “reaparecendo” por aí, e todas as notícias de reencontro são mentira.

Incrédula com a incredulidade alheia, vou verificar a foto da matéria. E fica claro que é uma montagem, que o recorte das ondas poderia ter sido feito um pouco melhor. É como se o mundo ficasse plano, sem sabor algum.

Peço desculpas aos leitores com um suspiro chateado e vou dormir com uma sensação de que os satélites espiões e nossas câmaras de segurança fofoqueiras, que não fazem muito mais do que mostrar nossas mazelas, poderiam, vez por outra, nos brindar com alguma imagem um pouco mais intrigante do que pessoas pixando muros em Porto Alegre.

E antes de mergulhar nos sonhos, sinto uma saudade adolescente das coisas que não sei. Uma saudade imensa do mistério que dava sabor à vida.

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