Fuga

Casarão abandonado na localidade de Fazenda Padre Eterno -1912 -.jpg

Diante do cenário atual, opto por escapar pela tangente. Depois do almoço, o domingo abriu um inesperado e amplo azul celeste, contradizendo as previsões climáticas que justificaram, em Porto Alegre, o cancelamento das passeatas contra o presidente em cheque do momento. Me pergunto que espécie de descontentes é essa que se rende à uma previsão de tempo – mas sei que não tenho o direito, porque nunca vou à passeata alguma, seja pró ou contra.

Saio na contramão da História do meu país e do meu planeta, queimando combustível fóssil sem a menor necessidade e, a certa altura da estrada asfaltada que se estende até Santa Maria do Herval por curvas e mais curvas, opto por aventurar-me à direita, em certo entroncamento que há algum tempo vem adquirindo status de ponto turístico. Não era plano de passeio – era para chover, lembram da passeata cancelada? – mas sigo assim mesmo. E dessa vez, em vez de perguntar mesma coisa de sempre, no ponto de sempre –  à direita da  igreja cinza, para a primeira pessoa que encontro: “aonde vai dar este caminho?” – opto por seguir à esquerda.

E a esquerda é uma serpentina de terra úmida colada à encosta da serra, mergulhando nas matas remanentes, emergindo nas saídas de propriedades insuspeitadas. Ali adiante, um horizonte que desmente nossa tormenta humana, amplo, distante, cidade após cidade, como sonhos, como brinquedos, como recortes. Dois Irmãos, acho, Novo Hamburgo, talvez, Porto Alegre, com certeza. A distância se multiplica em azuis.

E sigo, já não sou em quem vai pela estrada; é ela quem me leva, curva após curva, bosques, campos escondidos, fazendolas cheias de flores e sol.

Adiante, depois de uma pequena cascata, um regato largo e cantador. Adiante, marcando uma encruzilhada, uma casa fechada exibe a data de sua construção: 1912, um século depois da derrocata de Napoleão frente ao inverno da Rússia, um século atrás dos nossos dias virtuais, irreais e frenéticos. Pedra coberta de estuco branco, impassível. Adiante, depois de una curva, no alto de uma pequena elevação contornada pela estrada, dominando meu olhar mesmo desde os fundos, quase deserta, não fossem as vidraças quebradas, a sombra que a envolve como uma pátina mesmo ao sol que agora domina o céu, e o cemitério velho que a acompanha, como é o costume e como o é nas histórias de medo, uma igreja pequena e fechada e, é claro, assombrada, empresta um arrepio à tarde que vai esquentando. Ali adiante, na encruzilhada, uma placa saída de algum conto gótico de Shelley ou Poe, indica direções. Nenhuma aponta o castelo do conde predileto de Stoker.  Adiante, na estrada barrenta e desafiante, uma decida tensa, um platô com lago atemporal, casa de 1932 e gansos de agora, o cenário saído de algum romance que ainda não li. Lá embaixo, centenas de metros abaixo e muitos quilômetros além, outra cidade, outro horizonte: Nova Hartz, Parobé, quase presépios junto aos nossos pés que quase poderiam flutuar no espaço que deslumbra. Triste coisa é não saber voar.

Mais um tanto e a estrada serpenteia para o seu final. Adiante temos asfalto e cidade. Um trecho e eis-me de volta às esquinas da civilização.

Atrás de mim, no paredão verde musgo, a névoa se estende feito filó dourado, filha da umidade que emerge da mata ainda Atlântica. E na muralha da Serra, num cenário só dela, a Cascata da Bica, quase devorada pela sombra verde.

Tudo isso.

E eu esqueci a máquina fotográfica em casa. De registro, só a lembrança, sempre trapaceira.

Nem era para explorar tanto assim. Ia chover depois do almoço. Eu ia para casa fazer tricô. A passeata, inclusive, foi cancelada devido à previsão de mau tempo.

Ai de nós… as mentiras nas que escolhemos acreditar!

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