Dias bizarros

bizarro

Abro o jornal e tenho a certeza: em algum momento fomos levados a um universo paralelo onde as coisas são mais estranhas do que imaginamos.

Um homem rico rouba muito mais dinheiro do que irá gastar em toda a sua vida;

Hospitais equipados fecham as portas em uma das capitais de um dos países mais ricos do mundo, vítimas da má gestão e da roubalheira generalizada;

Em certa cidade, um homem bem vestido, de terno e gravata, entra calmamente em uma pizzaria e algum tempo depois sai de lá correndinho, correndinho, como quem vai pegar o ônibus ali na esquina, puxando uma mala de rodinhas. A mala contém R$ 500.000,00 e nos dias que correm, é um risco bizarro andar meia quadra, que seja, com tanto dinheiro. Aliás, me pergunto de onde terá vindo tudo isso. Deve ter se materializado entre a pizza de anchovas e a de quatro-queijos. Parece bizarro que malas de dinheiro se materializem em pizzarias;

A capital de um dos países mais ricos do mundo é palco de uma manifestação que descamba para a violência. Prédios de Ministérios são incendiados, patrimônio público é depredado. A Biblioteca do Ministério da  Cultura é destroçada e livros são rasgados e jogados no chão numa clara afirmação sobre o que se pensa sobre a Cultura, o Livro, a Literatura e o Pensamento, nesse país. Em milhares de lares, o povo trocou de canal para poder assistir a novela. Milhares de computadores foram acionados para assistir seriados e carregar jogos virtuais;

Um homem rico envia teu seu iate para Nova Yorque, em um navio cargueiro. Um navio carregando outro. Muito bizarro. Eu, pelo menos, acho;

Na capital de um dos estados mais importantes de um dos países mais ricos do mundo, o prefeito mandou pintar de cinza um viaduto transformado em obra de arte, porque algumas pessoas pixaram uma pequena parte do mural público. E mesmo assim, as pessoas se espantaram quando ele resolveu varrer os drogados de uma cracolândia, como se fossem lixo que se varre para baixo do tapete, como se fosse um desenho desagradável que se apaga passando tinta cinza por cima. À continuação, seguindo o padrão truculento que optou seguir, o mesmo prefeito decidiu derrubar um dos redutos onde pessoas se acoitavam para se drogar, sem verificar se havia alguém lá.

Havia. Gente ficou ferida.

Alguns aplaudiram a ação. A gente não resolve problemas. A gente os elimina,  porque cresceram tanto que não damos mais conta de lidar com eles.

Por todas as partes, pessoas agem como se esta não  fosse a sua realidade, como se este não fosse o seu país. É como se fosse o cenário de um filme de super-heróis. Os papéis apenas mudam de atores, e os atores mudam de papéis o tempo todo. Os governantes não estão preparados para governar, os ladrões no poder estão assustados, o jogo zune com a rapidez de uma partida virtual ou o roteiro de algum filme feito para que não pensemos no que se passa na tela. Vamos pensar depois.  O pior será se descobrirmos que o filme não valeu o preço do ingresso.

Em todo o caso, nesta parte da ação estão todos à espera da entrada em cena do Herói que vai levar tudo de volta à ordem.

Mas ele não vem.

Ele não vem.

Deve haver uma falha no roteiro, uma falha na Matrix. Como pode ser que ninguém viu isso?

Bizarro. Muito bizarro.

Mas, enfim, hoje é o dia da Toalha.

O bizarro é o mínimo que se pode esperar.

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