A Arca da menina

A barca de Rivânia é uma tábua de salvação

A barca de Rivânia é uma tábua de salvação. É verde e parece uma porta desencaixada dos umbrais de um uma casa boa mas velha. Flutua, e é isso o que importa.

Quando a água subiu não deu tempo de construir uma barca de 50 côvados de largura. Não havia, na casa simples onde ela morava, espaço para  erguer paredes de 30 côvados de altura.

Rivânia, 8 anos, vive no interior de Pernambuco, o que, para muita gente significa o interior do interior de um país onde Educação se faz com orçamentos vergonhosos e a Cultura é reduzida a folguedos populares, como se, com isso, as pessoas fossem desistir de pensar. O interior do Brasil: ali onde vivem os brasileiros, povo que, dizem as línguas envenenadas, não gosta de ler.

Naquele dia do Dilúvio, a voz de Deus foi como a voz da avó, soando pelo cômodo onde, não demoraria nada, a água bateria com suas mãos molhadas e frias, com seus olhos de chuva e sua fome de ipupiara. A voz da avó disse depressa: “Rivânia! Corre lá e pega tudo o que é mais importante”.

Daí que Rivânia foi e encheu sua mochila com só o que importava.

Não havia lugar para bonecos na mochila de Rivânia. Não havia lugar para roupas na mochila abarrotada, que ela abraçava e na qual se apoiava quando foi resgatada, exatamente como a gente faz com os bons amigos na hora do apuro. Havia gente demais para salvar no seu lugar, gente frágil, feita de papel e tinta.

Rivânia resgatou livros. Histórias de personagens, desenhos de bichos, talvez? Princesas e feiticeiros? Quem sabe?

Ninguém. Mas sei que no país da gente que não gosta de ler, uma menina de 8 anos, em plena enchente, colocou seus livros numa sacola colorida e levou para a sua arca de uma tábua só, palavras, papel e sonho.

Rivânia, apoiada na mochila, os olhos tristes se estendendo sobre a enchente como quem descobre a sina que a espera – a de recomeçar, sempre, sempre e sempre. Nova linha, novo parágrafo, novo capitulo, novo titulo. Nova vida.

Rivânia leitora, sem saber, resgatou na pequena arca, também, a minha esperança. No salva-sonhos colorido, a Infância e o Futuro navegaram as águas turvas de um país incerto que não deixa nunca de me surpreender.

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