Se nada der certo

A semana começa com o polêmico vídeo feito durante um “recreio temático”, realizado na Fundação Evangélica, escola hamburguense onde estudei na minha adolescência.

“Recreio temático”… quero expressar minha frustração. Quando estudei lá não tinha nada disso e eu teria adorado me vestir de Klingon. O tema dos recreios  eram os trabalhos que precisávamos entregar e as provas para as quais não tínhamos estudado, e aí usávamos aqueles quinze, vinte minutos, para a última olhada na matéria. Isso, às vezes, nos salvava. Recreio era hora para fofocar sobre os professores e os colegas, falar sobre as festas do final de semana, já que festa era um troço que acontecia no final de semana, longe da escola. Porque, sei lá, escola era lugar para estudar e ensaiar a ser adulto. Mas, é claro, os tempos mudam.

Ah, claro, o tema do tal recreio temático foi “se nada der certo…” Tipo: se nada der certo viro escritor de blogue. O tal do “plano B”, sacou?  Está todo mundo enlouquecido, na rede, porque as pessoas para quem o “plano B” dos alunos foi, é, e sempre será, o “plano A”, o único plano possível, se doeram. São pessoas que têm algo inestimável e intransferível consigo, tão valioso, que não tem preço: um sonho. Um sonho é como o Norte de uma bússola, algo que nos diz “é por ali”. E a gente vai. Quando eu estudava na Fundação, tinha um sonho. E o meu plano B era outro sonho. Hoje, quando um esmorece, vem o outro e me puxa para diante. Sempre foi assim – mas eu entendo que nem todo mundo tem esse lastro na vida.

Agora, tem uma coisa que me incomodou mais do que os “planos B” dos alunos: a fala do entrevistado. “Se nada der certo na vida, e tu tiveres de improvisar para ganhar dinheiro…”, diz ele, entusiasmado.

Para ganhar dinheiro? Meu Deus, eu achei que essa geração seria melhor do que a minha! Mas não: eles se pintam, brincam e se divertem como os netos que não tenho, mas falam como o meu pai.

O plano dessa geração, o sonho, a esperança dessa turma não é ser médico e salvar vidas, reformar o Brasil, acabar com a corrupção, construir uma sociedade mais justa, salvar os mares, escrever livros. Não. Talvez tudo isso seja grande demais para quem vive o amanhã virtual e colorido das redes sociais. Muito grande, muito difícil, muito frustrante – feito a vida real.  De fato parece muito mais simples e direto ter um plano para ganhar dinheiro.

Imagino aplicar o discurso do aluno à minha vida: se nada der certo, e eu não conseguir vender meus livros, se eu não conseguiu dançar “O Lago dos Cisnes“, improviso e viro médica, advogada ou política. Com certeza, meu futuro financeiro será bem mais promissor que os sonhos que escolhi seguir.

(Suspiro). Desculpe pela generalização, amigos médicos, advogados e políticos.  A vida não está fácil para ninguém, eu sei. E desabafo sempre cansa.

Quem sabe, depois de tanto bafafá, no próximo “recreio temático” essa turma assuma sua adolescência, pura e simplesmente, e se faça algo tipo “quando eu crescer serei…”. Seria bem mais honesto.

Eu, por meu lado, optarei por continuar a seguir o meu sonho. Não sei se vai funcionar, ainda estou na luta. Mas se, ao morrer, achar que nada deu certo, pelo menos saberei que não vivi em vão, como aqueles que trocam sonhos  por dinheiro, põe preço no seu Futuro e vendem a Felicidade por meia dúzia de mil reis em uma festa eterna, que parece não ter hora para acabar.

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