É só um livro

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Então…

Eu não ia entrar na discussão. Ia só dar uns pitacos aqui, outros ali e pronto. Afinal, já vimos esse filme antes e já sabemos que essa é uma discussão que leva a poucos lugares, porque o pessoal está, mesmo, interessado na nova série da Netflix, seja ela qual for.

Mas, aí, umas que outras coisas somadas a uma pergunta que me fiz, foram confrontadas com uma colocação de um sujeito no Facebook…

Ah, o Facebook.

Começou com a polêmica, aquela, do livro de histórias infantis que foi retirado de bibliotecas escolares por conter uma história que fala de incesto – o pai corteja a filha que se nega aos seus avanços, padecendo as consequências. Enfim, nada que uma criança leitora não encontre nos jornais ou na rede, e nada que uma criança ouvinte não ouça na TV, e tudo isso, sem a mediação da Literatura ou de um adulto, leitor ou não, com quem possa conversar sobre o tema espinhoso. Mas, claro, há algum adulto que goste de falar sobre um tema espinhoso com uma criança?

Na esteira disso, me veio, justamente, a palavra “mediação”, de onde emergiu “mediador”, ou seja, o leitor que já tendo andado um tanto na vida, vai intermediar o texto literário de qualquer natureza, com o leitor menos experiente. De onde aflorou a preocupação com a formação de leitores. E aí eu me peguei pensando: “engraçado, ninguém faz mediação de vídeogame, ninguém faz programa de “formador de jogador”. Porque, obviamente, não faz falta. E por quê?”

Seguiu-se um imenso raciocínio que me ocupou a hora de caminhada e que não vou reproduzir aqui, por longo e tedioso. No frigir dos ovos, concluí o mesmo de sempre, porque sou assim de cabeça-dura: game é anunciado e livro não. Game anuncia porque quer vender em loja e livro não anuncia porque, até agora, não precisava, vendia diretamente para as escolas, consumidoras cativas que são por inúmeras razões, dentre as quais a qualidade de literatura nem sempre é o principal artigo que determina a escolha de um título.

E aí comecei a pensar nas diferenças entre game e livros. Por que é mais popularmente divertido jogar do que ler, sobretudo, jogar os básicos mata-mata, corrida de carros e luta? (e agora sim, precisarei me estender).

Bom, essa é a minha tese de “achologia” do momento:

À primeira vista, um jogo parece ser mais interessante porque parece mais interativo.

Mas um livro é ainda mais interativo: ele exige que o leitor faça a sua parte que é imaginar o que está sendo descrito. Claro que, a partir daí, a interatividade é questionável, porque o personagem fará, apenas, o que o texto descreve. Você não pode obrigar Julieta a não se matar, por exemplo. Ela morrerá ao final da leitura, a menos que você reescreva a peça.

Contudo se você jogar algo tipo o Doom, por exemplo, mesmo que vença todos os níveis e interaja de forma diferente com os personagens, o final do game será sempre o mesmo, não importa o que você faça – então a interatividade é igualmente limitada. A diferença é que você não precisa fazer “força” para imaginar nada, apenas para apertar as teclas do computador. E o game fica na superfície do seu raciocínio. Sua reação a ele é básica: se você apertar essa ou aquela tecla, vence o nada virtual que é um jogo de computador. Não há o que pensar, só o que reagir.

À primeira vista, quem sabe, um jogo é mais fácil de compreender. Você senta na cadeira e joga, enquanto um livro é preciso que você conheça o idioma em que ele está escrito, saiba ler e saiba ler o idioma em que ele está escrito. O que já são várias coisas diferentes em uma só.

Mas um jogo precisa que você o instale; que saiba fazê-lo; que saiba onde estão os comandos do mesmo, o que sempre é uma descoberta, porque nem sempre são as mesmas teclas para isso. Você poderá alterar a configuração – se souber como fazê-lo. Nem sempre são as mesmas, então para cada jogo há um padrão diferente, que você precisa aprender. E cada jogo tem macetes diferentes, e para cada um você terá de passar por fases de aprendizado, se quiser ter sucesso no mesmo. Então, não é tão simples assim.

Um texto escrito leva vantagem: um “a” é sempre um “a”. Tem o mesmo valor sonoro, mesmo que mude sua função dentro de uma frase. Depois que você aprende algumas coisas, elas não mudam naquele idioma. Por exemplo: “g”+ “u”+ “a”, sempre será “gua”, e terá o mesmo som em “água” ou “trégua”. Então você só tem de aprender uma vez para todo o sempre, na língua portuguesa, e em todos os livros em Português que tiverem a palavra “água”, o som será o mesmo e a palavra será a mesma coisa sempre. O que não acontece com os games de PC, onde diferentes jogos tem diferentes funções para teclas iguais. Se aprender a mover um personagem com os comando acionados com a mão esquerda, em outro jogo poderá ter de aprender a fazê-lo com a mão direita. Mas você aprendendo como se lê “água” uma vez, nunca mais precisará aprender de novo.

Então, por exemplo, você pode formar frases simples com informação muito básica como “água”+ “que”+ “corre”.

E aí é que vem a grande diferença.

Primeiro, deixem que eu explique: decifrar palavras, para mim, não é o mesmo que ler. Juntar letras, “acolherar” letras, é uma coisa. Fazer com que esse conjunto de símbolos que não passam de rabiscos, tenham um significado, é outra. É, justamente, o que faz de alguém um leitor: dar sentido ao que vê em forma de símbolo.

Bem, sigo com meu raciocínio:

Quando eu leio a palavra “água”, minha mente evoca uma imagem. Se eu leio uma frase simples como “água que corre”, minha mente evoca um quadro completo: um riacho borbulhante sobre pedras cheias de musgo. Essa imagem tem cor, luz, movimento, som, cheiro. É absolutamente completa, mesmo que na sequência o autor me descreva um quadro muito diferente. E o mais fantástico é que cada leitor “verá” o seu quadro particular de “água que corre”, composto por suas próprias reminiscências. Reminiscências, neste caso, feitas de informação e lembrança, portanto capaz de evocar sentimentos.

Isso faz da Literatura uma experiência absolutamente pessoal e única, abissal, completa. Não há, repito, não há nada escrito, por mais simples que seja, que não toque essa corda que nos move, o sentimento. Toda frase escrita tem o poder de nos sacudir, de nos fazer pensar. Nada, absolutamente nada, que estiver escrito, é inócuo. Tudo tem poder sobre nós porque, passando pelo raciocínio, toma forma, realmente, no espírito de quem lê. A Literatura – e tudo o que é escrito, nesse caso – acontece no coração, como já disse um escritor que ouvi falar certa vez.

O que torna a Literatura um desafio para quem não quer mexer com as suas emoções, com quem está em pânico com elas. Quando eu jogo no PC, dirijo feito uma doida um carro de pixels, mato com uma metralhadora um sujeito virtual, não tenho que pensar na moral disso. Não há consequência imediata na realidade.

Mas se eu leio um livro, mesmo que não me mova de uma cadeira, o texto remexe o meu interior e me obriga a pensar, me confronta a cada linha com o que eu penso, faço e acredito. Ele me desafia, mesmo quando é uma história de fadas, escrito em verso, com um vocabulário simples.

Toda palavra escrita é subversiva. Ela é permanente, o que a difere no Tempo e no Espaço da palavra falada. Ela subverte o que eu acredito ser real, questiona a mim e à minha realidade o tempo todo. Um texto escrito é, portanto, um problema em potencial.

E aí, pois, chego ao meu gatilho: a frase escrita por um debatedor, no post de um amigo, no Facebook.

A frase era: “É só um livro”. Dentro da conversa virtual, a frase soou com um profundo desprezo.

É só um livro.

Imediatamente saltou à minha cabeça, em tom de indignação quase uma centena de “só um livro”, toda uma biblioteca. Livros que levaram pessoas à loucura e nações à guerra. Livros que levaram gente à perdição e a à salvação e, em ambos casos, à transformação.

Como assim, “é só um livro”?!

Um livro não é só um livro. É uma arma intelectual carregada e apontada para nossas certezas.

Da próxima vez que você sentar com um livro nas mãos, lembre-se disso: o objeto de papel (ou o virtual, de plástico e energia) não é só um livro.

O que ele contém não é apenas um conjunto de rabiscos.

São idéias. Vão fazer você pensar, quer queira, quer não queira. Essa coisa vai desafiar você a decifrá-lo e então devorará o seu Tempo e a você mesmo e o obrigará a seguir transformado, mesmo que seja um texto simples e você não queira, ou não esteja preparado para isso. Não importa o quanto. Não importa se é visível ou não. Ninguém passa pela leitura isento de mudança.

É isso o que faz de um livro um livro. É isso o que assusta, na Literatura.

É isso o que leva as pessoas a querer tirá-los das estantes. Não é o que eles contém. É o que eles despertam dentro de seus leitores.

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