Artesanato


Agora mesmo há lugares no mundo em que o céu tem o tom das lágrimas. Há corações que batem ao compasso do medo e da dor. O céu ruge em labaredas famélicos, o mar engole as últimas esperanças, sem pudor, sem piedade. Amanhã, os destroços de hoje darão às praias e o vento soprará as cinzas. Meu coração se confrangerá com a dor alheia, porque eu sou assim, porque acho que todo ser humano é próximo a mim em humanidade, esperança, e conforto.

Agora mesmo há, no mundo, uma cabeça que descansa em um travesseiro imundo. As mãos de criança exibirão calos de adulto e talvez ela sequer sonhe, de tão cansada que está.

Mas eu espero que sonhe, e que sonhe com o meu por de sol.

Agora mesmo há em algum lugar do mundo, um coração que deixará de latir, uma pessoa que deixará de acreditar, alguém que volta a erguer a cabeça depois de tudo perdido, um pé que se aventura de novo, depois de ter chegado ao fim de um caminho, uma mão que se estende sobre um abismo, um abraço que já não se esperava, um sorriso que parecia apagado para sempre e um beijo que ninguém poderia imaginar.

Alheio a tudo isso, aqui e agora, o céu se desvela e o fim de tarde é belo. Tudo é  belo. E tudo é possível, até a esperança. Tudo é irremediável, efémero e delicado.

Talvez nem seja fim de tarde. Talvez sonho, talvez. Somente um sonho prestes a despertar.

O Tempo é um delicado e impiedoso artesão.

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