Pura virtualidade

iceberg1Tenho uma teoria sobre a Ficção Científica, que nos últimos tempos tem deixado de ser uma teoria.

É o seguinte: vivemos dias de Ficção Científica. Na real, acho que vivemos em algum romance de FC, uma espécie de super-realidade-virtual, onde você pode escolher que tipo de narrativa quer ver/ler/curtir.

Por exemplo, agora descubro na rede que já se comercializam robôs sexuais. As velhas bonecas infláveis, aquelas que explodiam quando o sujeito menos esperava, agora ganharam esqueleto articulado, pele de silicone, olhos e cabelos realistas. E já tem especialista preocupado com que o isso vai resultar nos relacionamentos pessoais. Que, aliás, andam bem virtualizados através das infinitas, e incansávelmente chatas, possibilidades da rede mundial de computadores – que por si mesma já é um tema e tanto para qualquer romance de FC.

Mas você pode preferir uma história de guerra: acompanhe as batalhas incansáveis e infinitamente desumandas na Síria. Você verá que tecnologia vai, tecnologia vem, se não for a boa e velha capacidade de firmar a paz e o trabalho de duro de mantê-la, não haverá bombardeio que consiga eliminar o inimigo, que sempre é o Outro, seja ele quem for.

Se você gostar de tensão apocalíptica, siga Trump. Medo, sexo, fofoca, desvairios tuísticos, tem de tudo nessa história de intriga internacional que pode acabar com a gente ali adiante, talvez, quem sabe. Melhor que ele, só Stephen King, mas o problema é que o Stephen é apenas um escritor e tudo o que vier dele é apenas virtualidade dentro do virtual.

Talvez você goste de romances.Aí não dá outra: siga a incansável e infinita saga de paixão entre um homem e uma faixa presidencial. Em letras garrafais: “Brasilia: intriga, poder, e encontros atrás das moitas”. Uma beleza. Uma joia da literatura experimental moderna: há uma história mas não foi nada, não foi ninguém, ninguém sabe, ninguém viu. É um bate-boca atrás do outro, gente tentando escrever um momento histórico como se fosse possível compor isso como se fosse uma peça de teatro. Um país se desmonta em enganos e não há ninguém para tomar a frente e promover um diálogo capaz de tirar a nação do poço fundo, então vamos todos ao Rancho Fundo cantar uma moda de viola. Na minha opinião o final vai ser patético e tudo vai ficar por isso mesmo. Ninguém ficará para a História, sobretudo aqueles que vêm se inscrevendo na longa lista de gente interessada em ter seu nome inserido na História, porque ainda não entenderam que a História não se faz com selfie, mas com seriedade. Será um momento nebuloso que renderá outros capítulos virtuais, uma espécie de distopia-política-humorística – de humor negro, bem entendido.

Mas se você gostar de Ficção-Científica da boa, com um pé no real, no desafio verdadeiro e na aventura incansável e infinitamente emocionante, se ligue no iceberg que se desprendeu da Antártica, um território de gelo do tamanho do Distrito Federal, pesando um trilhão de toneladas, que partiu para uma viagem derradeira pelos mares do sul do planeta. Ele irá derreter lentamente, perdendo massa ao longo de sua rota, empurrado por ondas gigantescas que só se erguem no Polo Sul. Será um romance e tanto. E será a única coisa real, de fato. Porque o restante, como você viu, é pura história de homens, os grandes contadores de causo do Universo.

Dramático e pungente, o bloco de gelo gigante vez por outra rosnará e se partirá em pedaços menores, menores, e de novo menores, até que seu toque se dilua. E você, de pé na praia, em Tramandaí, achando que a vida é apenas sexo, drogas e sertanejo universitário, vai reclamar que a água está fria, fria, um horror de fria.

E nem vai lembrar das banquisas brancas, das ondas escuras e do planeta em constante mutação.

Não vai pensar que talvez ele não esteja muito afim de ser coadjuvante, na sua história. Talvez ele seja o protagonista oculto de uma história que não nos inclua na linha principal da narrativa.

E isso que estamos só na primeira metade do mês…

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